Chegar aos 60 anos hoje é muito diferente do que era há três ou quatro décadas. Vivemos mais, temos acesso a recursos diagnósticos e a tratamentos que não existiam ou eram pouco disponíveis para nossos pais e avós. Sabemos hoje muito mais sobre os fatores que interferem na forma como envelhecemos. Mas será que isso significa que estamos, de fato, envelhecendo melhor?

A resposta não é tão simples. A medicina avançou de maneira extraordinária. Doenças cardiovasculares podem ser identificadas e tratadas mais precocemente, o controle da hipertensão e do diabetes evoluiu, vacinas ajudam a proteger a população mais velha e exames permitem reconhecer alterações antes mesmo do aparecimento de sintomas.

Também mudamos nossa compreensão sobre o envelhecimento: chegar aos 60, 70 ou 80 anos deixou de significar necessariamente afastar-se do trabalho, da vida social, dos projetos ou da atividade física.

E essa transformação representa uma enorme conquista. Hoje sabemos, por exemplo, que preservar músculos é fundamental para manter independência e reduzir o risco de quedas; que cuidar da audição e da visão contribui para a autonomia; que atividade física protege não apenas o coração, mas também o cérebro; e que vínculos sociais, sono adequado, alimentação equilibrada e estímulo cognitivo fazem parte do cuidado com a saúde.

Por outro lado, nossa geração também envelhece diante de problemas que ganharam novas dimensões. Passamos muitas horas sentados, convivemos com excesso de alimentos ultraprocessados, estresse constante e uma rotina cada vez mais mediada por telas.

Podemos estar conectados a centenas de pessoas e, ainda assim, experimentar solidão. Além disso, viver mais significa conviver por mais tempo com doenças crônicas, o que torna a prevenção ainda mais importante.

Talvez a principal diferença entre o envelhecimento dos nossos pais e o nosso esteja justamente na possibilidade de participar mais ativamente desse processo. A genética continua tendo seu peso, assim como as condições sociais e o acesso à saúde, mas hoje conhecemos melhor aquilo que podemos modificar ao longo da vida.

E esse cuidado não precisa começar só aos 60. O envelhecimento é construído todos os dias, nas escolhas feitas aos 30, 40, 50 anos e também depois deles. Nunca é cedo demais para investir em saúde — e tampouco é tarde demais para começar a se movimentar, rever hábitos, aprender algo novo, fortalecer relações e cuidar melhor de si.

No Dia do Idoso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas se estamos envelhecendo melhor do que nossos pais. É perguntar o que estamos fazendo hoje para que os próximos anos sejam vividos não somente em número de dias, mas principalmente com autonomia, saúde, vínculos, curiosidade e propósito.

Priscila Valentim
Médica e CEO da MedSênior

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