
Durante décadas, falar sobre HIV significava, principalmente, falar sobre diagnóstico, tratamento e sobrevivência. O avanço da medicina, especialmente dos medicamentos antirretrovirais, mudou esse cenário.
Hoje, milhões de pessoas que vivem com HIV chegam à maturidade e à velhice, trazendo uma nova questão para os sistemas de saúde: como envelhecer com saúde vivendo com HIV?
Uma projeção da The Lancet HIV Commission on ageing and HIV (Comissão sobre Envelhecimento e HIV), publicada em 2026, mostra a dimensão dessa transformação. Em 2025, cerca de 11,5 milhões de pessoas vivendo com HIV tinham 50 anos ou mais, o equivalente a 29% dessa população.
Até 2040, esse número pode chegar a 20,2 milhões, representando 51% de todas as pessoas vivendo com HIV no mundo. A idade mediana também deve subir de 41 para 50 anos.
A mudança é, em grande parte, consequência do sucesso do tratamento antirretroviral, que permitiu que pessoas diagnosticadas anteriormente chegassem a idades mais avançadas.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca que o acesso ao tratamento fez com que a expectativa de vida de muitas pessoas vivendo com HIV se aproximasse da observada na população geral.
O desafio, portanto, mudou. Não se trata apenas de viver mais com HIV, mas de envelhecer com HIV.
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Por que a população com HIV está envelhecendo?
Os medicamentos antirretrovirais atuam reduzindo a multiplicação do HIV no organismo e ajudam a preservar o sistema imunológico. Com o tratamento adequado e a adesão ao acompanhamento médico, a infecção pelo HIV passou a ter características de uma condição crônica para muitas pessoas.
No Brasil, os medicamentos antirretrovirais são disponibilizados gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo o Ministério da Saúde, o tratamento é fundamental para aumentar o tempo e a qualidade de vida das pessoas vivendo com HIV, além de reduzir internações e infecções oportunistas.
A própria OMS aponta que o aumento da longevidade entre pessoas em tratamento trouxe para o centro da discussão questões tradicionalmente associadas à geriatria, como polifarmácia, cuidados integrados e etarismo.
Para o geriatra Dr. Roni Mukamal, superintendente do programa Bem Envelhecer da MedSênior, essa mudança reforça a importância de olhar para o envelhecimento de maneira integral.
“O idoso também está exposto a esses problemas. O namoro depois dos 50 anos, dos 60 ou em qualquer idade, requer prevenção. Por isso, é fundamental que se cuide”, destaca o médico.
O que a projeção para 2040 revela?
Os números da Comissão sobre Envelhecimento e HIV, ajudam a visualizar como a população que vive com o vírus está mudando:
- 11,5 milhões pessoas com 50 anos ou mais vivendo com HIV em 2025;
- 20,2 milhões é a projeção para 2040;
- A participação das pessoas com 50 anos ou mais entre todos os indivíduos vivendo com HIV passará de 29% para 51%;
- De 41 para 50 anos é o aumento projetado da idade mediana da população vivendo com HIV.
A projeção faz parte da The Lancet HIV Commission on ageing and HIV: a global perspective, publicada em agosto de 2026.
Quais são os desafios de envelhecer com HIV?
O envelhecimento com HIV exige uma abordagem que vá além do controle do vírus. A Comissão da The Lancet HIV chama atenção para a necessidade de integrar o cuidado do HIV às demandas próprias do envelhecimento.
Desafios clínicos
Pessoas que envelhecem com HIV podem apresentar maior complexidade clínica e necessidade de acompanhamento de diferentes condições de saúde. Entre os pontos de atenção estão:
- Doenças cardiovasculares;
- Alterações metabólicas, como diabetes e dislipidemia;
- Doenças renais;
- Alterações ósseas;
- Alguns tipos de câncer;
- Fragilidade e perda de capacidade funcional.
A comissão destaca, por exemplo, que pessoas mais velhas vivendo com HIV apresentam maior ocorrência de doenças cardiovasculares e doença renal, além de outros agravos associados ao envelhecimento.
Desafios relacionados ao tratamento
Com o avanço da idade, também pode aumentar o número de medicamentos utilizados para diferentes condições de saúde. É a chamada polifarmácia, que exige atenção para possíveis interações entre medicamentos, adesão ao tratamento e efeitos adversos.
Por isso, o acompanhamento não deve considerar apenas a carga viral. É importante avaliar o conjunto de medicamentos utilizados, as demais condições de saúde e as necessidades individuais de cada pessoa.
Desafios funcionais e emocionais
Envelhecer com HIV também envolve aspectos que nem sempre aparecem nos exames laboratoriais.
Cognição, saúde mental, mobilidade, fragilidade, autonomia e isolamento social precisam fazer parte da avaliação. A OMS chama atenção para problemas como comprometimento cognitivo e físico, fragilidade, estigma e discriminação entre pessoas mais velhas vivendo com HIV.
Nesse sentido, o cuidado geriátrico pode contribuir para identificar precocemente mudanças na capacidade funcional e preservar a independência.
Por que o diagnóstico de HIV ainda pode ser tardio após os 50 anos?
Falar sobre HIV na maturidade também significa combater uma ideia equivocada: a de que pessoas mais velhas não estão expostas ao vírus.
A idade, por si só, não elimina o risco de HIV. O Ministério da Saúde reforça que as infecções sexualmente transmissíveis podem atingir pessoas de todas as idades e que a prevenção deve fazer parte da vida sexual em diferentes fases da vida.
Um dos obstáculos pode estar justamente na dificuldade de conversar sobre sexualidade na consulta médica. Quando esse assunto não é abordado, oportunidades de orientação, prevenção e testagem podem ser perdidas.
Além disso, manifestações iniciais da infecção pelo HIV podem ser pouco específicas. Segundo o Ministério da Saúde, a fase aguda pode apresentar sintomas semelhantes aos de uma gripe, como febre, dores no corpo e mal-estar, o que reforça a importância da testagem diante de situações de exposição.
Para Dr. Roni Mukamal, falar sobre sexualidade na maturidade é também falar sobre saúde.
“Dados como esses revelam a importância da informação e a quebra de tabu. É preciso falar abertamente sobre sexualidade e orientar os idosos sobre todas as formas de prevenção, como o uso da camisinha nas relações sexuais”, afirma o geriatra.
Por que a prevenção do HIV também precisa falar com pessoas mais velhas?
Preservativo, testagem e profilaxias não são estratégias destinadas exclusivamente aos jovens. A prevenção deve acompanhar as diferentes fases da vida e considerar as características e necessidades de cada pessoa.
No Brasil, o Ministério da Saúde trabalha com o conceito de Prevenção Combinada, que reúne diferentes estratégias de acordo com o contexto e a necessidade individual. Entre elas estão:
- Preservativos internos e externos, que também ajudam a prevenir outras infecções sexualmente transmissíveis;
- Testagem regular para HIV e outras ISTs;
- PrEP (Profilaxia Pré-Exposição), indicada para pessoas que apresentam maior risco de exposição ao HIV;
- PEP (Profilaxia Pós-Exposição), utilizada após uma situação de risco e que deve ser iniciada o mais rapidamente possível, em até 72 horas;
- Acompanhamento e tratamento das pessoas que vivem com HIV;
- Ações de educação e informação em saúde.
A PrEP é disponibilizada gratuitamente pelo SUS para pessoas que podem se beneficiar da estratégia, mediante acompanhamento dos serviços de saúde. Já a PEP é uma medida de emergência que deve ser iniciada em até 72 horas após uma exposição de risco e tem duração de 28 dias.
O SUS também oferece testes rápidos para HIV gratuitamente. Eles podem utilizar amostra de sangue ou fluido oral e apresentar o resultado em cerca de 30 minutos, dependendo do teste.
Mais do que ampliar o acesso às estratégias de prevenção, é importante que campanhas de saúde reconheçam que a vida sexual continua fazendo parte da vida adulta e da velhice. Comunicação, acolhimento e informação sem preconceitos podem ajudar a aproximar as pessoas dos serviços de saúde.
O que significa envelhecer com qualidade de vida vivendo com HIV?
Envelhecer com HIV significa cuidar de muito mais do que a carga viral.
Significa acompanhar a saúde cardiovascular e metabólica, manter a vacinação em dia, avaliar medicamentos, preservar força e mobilidade, cuidar da saúde mental, manter vínculos sociais e acompanhar a capacidade funcional.
Também significa ter espaço para falar sobre sexualidade, relacionamentos, prevenção e projetos de vida sem que a idade seja tratada como uma barreira.
A OMS defende que as necessidades das pessoas mais velhas vivendo com HIV sejam incorporadas às estratégias de envelhecimento e que os serviços ofereçam cuidados adequados à idade, combatendo simultaneamente o estigma e o etarismo.
A mudança demográfica projetada para as próximas décadas mostra que esse não é um desafio distante. Se em 2040 mais da metade das pessoas vivendo com HIV tiver 50 anos ou mais, envelhecer com HIV precisará ser entendido como parte do cuidado em saúde ao longo de toda a vida.
Nesse cenário, a geriatria ganha um papel importante: olhar para a pessoa de forma integral, considerando não apenas a doença ou o vírus, mas também sua autonomia, funcionalidade, saúde emocional, relações sociais e qualidade de vida.
Como resume a transformação apontada pela Comissão da The Lancet HIV, o sucesso do tratamento fez com que a pergunta deixasse de ser apenas como ajudar as pessoas a viver mais e passasse a ser também como ajudá-las a envelhecer bem.
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Na MedSênior, acreditamos que envelhecer bem significa cuidar da saúde de forma integral, respeitando as necessidades de cada pessoa em todas as fases da vida. Com foco no público a partir dos 49 anos, trabalhamos para promover o Bem Envelhecer por meio de um cuidado contínuo, humanizado e atento à qualidade de vida.
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